Manipulações no semanário Expresso

Os média condicionam a opinião pública – 2 <br><font size=-1>(conclusão)</font>

Eugénio Rosa
A mentira e manipulação são cada vez mais utilizadas nos média como forma de condicionar a opinião pública, e de justificar e branquear as políticas do governo. Neste artigo concluímos a análise de dois casos paradigmáticos iniciada na edição da semana passada, reportando-nos desta vez a explanações de Daniel Amaral, um comentador de temas económicos que tem um espaço quinzenal reservado no Expresso.

Anexo: Percentagem das remunerações no PIB em Portugal e na União Europeia

Em 6.1.2007, Daniel Amaral (DA) publicou no Expresso um artigo com o título «Salário Mínimo: Sim, mas» onde concluía o seguinte: «Não tenho dúvidas a este respeito: a política salarial nos últimos anos foi completamente suicida e a ela se deve, em grande parte, o elevado desemprego que hoje temos». E terminava dando este conselho aos trabalhadores e sindicatos: «as actualizações salariais deste ano (2007) não deverão exceder os 2%», portanto menos que a inflação prevista pelo próprio Governo. Desta forma dava, objectivamente, a cobertura e a justificação para a política do Governo de redução continuada de salários reais e de baixo salários para atrair o capital estrangeiro, exposta pelo ministro da economia na China.
Para poder tirar aquelas conclusões, DA manipulou também dados estatísticos, calculando também a «sua» percentagem que os salários representam do PIB em Portugal, apesar de existir já um valor calculado pelo Eurostat que não lhe servia para a conclusão que pretendia tirar, já que era mais baixo do que aquele que obteve. E depois comparou a percentagem que obteve com dados calculados pelo Eurostat para outros países e assim chegou à conclusão que pretendia. Estes dados vão ser apresentados num quadro com outros para Portugal também divulgados por ele num artigo seguinte assim como os do Eurostat para facilitar que o leitor tire também as suas próprias conclusões.
Três semanas depois e após muita insistência, o Expresso publicou uma nossa carta ao director onde desmontávamos tecnicamente as manipulações de Daniel Amaral. Uma semana depois (3.2.2007), utilizando o espaço reservado que tem no Expresso, DA respondeu, e à falta de argumentos técnicos para rebater enveredou pelo ataque pessoal. Não é esse ataque que pretendemos analisar aqui, mas sim os novos dados que apresentou e que confirmam a manipulação utilizada para condicionar quem o leu. São esses novos dados, como os constantes do artigo que publicou em 6.1.2007, assim como os divulgados pelo Eurostat, que reunimos num único quadro para o leitor se aperceber rapidamente da manipulação utilizada.

Perguntas pertinentes

Os dados do quadro em anexo levantam imediatamente uma primeira pergunta, que é a seguinte: Porque razão Daniel Amaral, nas comparações que faz entre Portugal e a União Europeia, não utilizou para o nosso País também os dados publicados pelo Eurostat, pois eles estão disponíveis na Internet?
Se o leitor analisar os dados do quadro a resposta é evidente: É que os dados do Eurostat não permitiriam a Daniel Amaral tirar a conclusão que tirou, pois esses dados até a contradizem. Por exemplo, em 2006, a percentagem que as remunerações representavam do PIB em Portugal era 47,4%, enquanto a média da UE25 atingia, nesse mesmo ano, 48,9%. Se a percentagem em Portugal fosse nesse ano igual à média comunitária os trabalhadores portugueses teriam recebido mais 2.300 milhões de euros de remunerações.
A segunda questão que também suscitam imediatamente os dados para Portugal calculados por DA é a seguinte: Porque razão DA aumentou o valor para Portugal para o ano de 2006, entre o artigo publicado em 6.1.2007 (50,6%) e em 3.2.2007 (51,4%)? Para além de evidenciar a sua falta de rigor (e tenha-se presente que cada 1% do PIB corresponde a mais de 1.500 milhões de euros de remunerações) essa diferença também confirma a manipulação feita por DA.
Finalmente interessa chamar a atenção do leitor para uma alteração importante que se verifica entre o 1.º e o 2.º artigo de DA que evidencia também a sua falta de rigor. No artigo publicado em 6.1.2007, DA utiliza o conceito «peso dos salários no PIB», enquanto no artigo publicado em 3.2.2007, DA já utiliza o conceito «remunerações / PIB».
Ora estes dois conceitos técnicos significam coisas muito diferentes. Enquanto o conceito «salários» não inclui as contribuições para a Segurança Social e Caixa Geral de Aposentações (CGA), o conceito «remunerações» já as inclui. Para que o leitor possa ficar com uma ideia das consequências em termos de repartição da riqueza criada em Portugal basta dizer que as contribuições patronais para a Segurança Social e para a CGA representam cerca de 10 pontos percentuais do PIB (corresponde a cerca de 15.000 milhões de euros de remunerações a mais), portanto não é indiferente, sob o ponto de vista técnico, utilizar um outro conceito como faz Daniel Amaral.
A reacção de DA é a habitual nos defensores do pensamento económico único de cariz neoliberal. Quando são confrontados com argumentos técnicos enveredam pelo ataque pessoal. Também é típico do comportamento dos jornais que os escolhem e os acolhem o procurarem silenciar todas as opiniões diferentes, dificultando ou mesmo impedindo a publicação dos artigos que contradizem as opiniões veiculadas habitualmente. Assim mantêm no engano os seus eleitores. O caso Daniel Amaral é um exemplo paradigmático. A confirmar a atitude do Expresso (manter no engano os leitores), está a não publicação da 2.ª carta que enviámos ao seu director rebatendo, com base em argumentos técnicos, as manipulações de Daniel Amaral no seu 2.º artigo, em que nos recusávamos a entrar no ataque pessoal como ele fez. É essa carta não publicada pelo Expresso que se transcreve em separado.

A carta que o Expresso não publicou

«Torno a escrever porque Daniel de Amaral (DA) na resposta à minha carta, no lugar de a rebater com argumentos técnicos, utiliza o ataque pessoal ultrapassando os limites do bom senso. É evidente que não vou descer ao mesmo nível, como também sucedeu na Assembleia da República quando o 1.º ministro fez o mesmo, mas este ainda teve a coragem de, pessoalmente, se justificar com palavras que representavam um pedir de desculpa, o que certamente não fará DA porque não condiz com o seu perfil. Cada um escolhe os interesses que quer defender, e eu tenho procurado conservar a independência intelectual e o rigor técnico.
«Daniel Amaral cometeu erros técnicos que não são admissíveis em qualquer economista que se oriente pelo rigor e pela verdade. E cometeu não só porque procurou confundir o leitor no 1.º artigo não explicando a diferença entre «Peso dos salários no PIB» que utilizou, e «Remunerações/PIB» que já usou na resposta, mas também porque continua a fazer comparações internacionais que são tecnicamente incorrectas. Para concluir isso basta comparar para Portugal e para o mesmo ano – 2006 – o valor de DA (51,4% do PIB) e o já divulgado pelo Eurostat (47,4% do PIB ), ou seja, menos 4 pontos percentuais que o de DA, o que representa menos 6.360 milhões de euros de remunerações do que as calculadas por DA.
«Mesmo na sua resposta, DA continua manipular os dados. Compara a produtividade mas “esquece-se” de comparar níveis salariais. De acordo com o Eurostat, em 2005 por ex., a produtividade em Portugal correspondia a 65,5% da média comunitária (UE25), mas o custo da mão de obra em Portugal representava apenas 49,6% da média comunitária (também UE25). Segundo o Eurostat, em 2006, os custos do trabalho aumentaram na UE25 2,6%, enquanto em Portugal subiram apenas 0,1%, ou seja, 26 vezes menos, o que agrava ainda mais aquela relação. Portanto, tendo em conta os níveis salariais é-se obrigado a concluir que a produtividade em Portugal é proporcionalmente superior à media comunitária. Mas esta é uma conclusão de natureza técnica que tanto DA como o governo procuram esconder no seu afã de atacar os trabalhadores.»


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